Em meio ao terror brilha uma luz

Artigo Publicado na Revista Educação em Focus - Segunda Edição


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Em 11 de setembro de 2001 a humanidade, confusa, assistiu ao vivo pela televisão, as cenas da ação terrorista nos Estados Unidos. Confusa, porque inicialmente o coração se recusava a acreditar no que os olhos viam. Tratava-se de realidade ou eram imagens de um filme, desses que invadem as nossas casas, o nosso cotidiano, banalizando a violência e a destruição?

Em meio às imagens do terror, a ação de um grupo de "soldados do fogo" - bombeiros treinados e pertencentes a uma corporação mundial, cuja filosofia é salvar vidas em perigo, quase passou despercebida, não fossem eles soterrados pelos escombros das torres em chamas.

Passado o choque inicial, muitos mergulharam na dor e no medo. Outros, cegos pelo ódio, atribuem ao "outro" a culpa, as responsabilidades que legitimam as represálias que, no fundo, se assemelham ao que querem combater, dando continuidade a um ciclo vicioso de causa e efeito.

Em nome da democracia  e da liberdade, em nome de ganância por mais dinheiro, em nome de conceitos, pré conceitos e crenças, que nada mais são que manifestação de um individualismo egoísta, quanto terrorismo psicológico, quanta destruição do meio ambiente se tem praticado nos últimos tempos e quanta miséria se tem espalhado pelo mundo.

Embora a ciência e a tecnologia tenham avançado consideravelmente, um olhar sobre o passado e constatamos uma triste realidade: a consciência da humanidade evoluiu muito pouco no último milênio. Os homens do poder constinuam agindo da mesma maneira inconsciente. Mudaram os métodos, mas o uso do poder sobre os outros continua causando miséria e horror. A história nos lembra a brutalidade das Cruzadas dos séculos XI, XII e XIII para arrancar dos muçulmanos a Terra Santa, com o suposto objetivo de converter os "infiéis" em nome de Cristo, mas ao fio da espada. Matava-se, depredava-se, humilhava-se, saqueava-se, dizimando e deixando na mais terrível miséria os povos da Palestina. Isto, para não falar de muitas outras matanças ao longo dos séculos.

Hoje, faz-se o mesmo, mas com armas mais modernas e mais potentes. De um lado, como no passado, em nome de uma fé; do outro, por vingança, para mostrar força e poder diante do mundo, por interesses outros. Mas ambos, através de suas ações, condenam à mais terrível miséria populações inteiras.

No presente, como no passado, como disse Michael Elliot no jornal Times de 24/09/01, isto acontece "quando nações assumem para si mesmas a responsabilidade global de livrar o mundo de uma prática que consideram condenável". A resposta de Bush, que representa de maneira geral a vontade do povo americano, e a ação dos terroristas denunciam, pura e simplesmente, que a humanidade continua agindo segundo um desejo primitivo de vingança, apesar do medo, da dor e do sofrimento. E ainda chamam isso de guerra do "bem contra o mal"! De que lado está o bem, de que lado está o mal, se ambos, atormentados pelos velhos conceitos de vitória e derrota, são movidos pelo poder, pela arrogância e pelo desejo de vingança?

A verdadeira essência do relacionamento entre os povos é a sinergia - processo de entendimento mútuo, visando um ganho para todos. A sinergia exige capacidade de entendimento, habilidade e disposição mental para encontrar alternativas melhores do que as propostas inicialmente por cada uma das partes. O processo sinergético subentende a aceitação e o respeito à diversidade entre os povos, representando o último estágio a ser alcançado pela humanidade. Entretanto, as evidências mostram que não saimos sequer do estágio da competição, em que ganha o mais forte, o mais poderoso. Entre esses dois estágios há ainda o da negociação, quando ambas as partes fazem concessões para alcançar um fim comum. Estamos, portanto, ainda muito longe do ideal de relacionamento humano.

Tudo o que vivemos, individualmente e coletivamente, tem um sentido e não é fruto do acaso. A cada efeito corresponde uma causa e vice-versa. Esta é a lei do mundo material. O homem está o todo instante se deparando com esta lei e sofrendo as consequencias de seus atos, mas prefere continuar ignorando que é responsável pelo mundo que está criando. Enquanto habitar em nosso coração a separação, o ódio ou o ressentimento, continuaremos prisioneiros da lei de causa e efeito e não seremos livres, muito menos felizes.

Nesse momento, não só os americanos, mas cada ser humano deveria se questionar sobre sua responsabilidade pessoal em relação a esses acontecimentos. Qual é o conteúdo dos nossos pensamentos? Qual é a qualidade das nossas palavras, das nossas ações e dos nossos comportamentos? Aquele que puder afirmar sinceramente que não está poluindo o mundo com os seus pensamentos negativos ou carregados de ódio e de destruição, ou praticando o terrorismno psicológico através de chantagens, enganações e ameaças, fugindo muitas vezes à sua resposnsabilidade pessoal diante da vida... "que atire a primeira pedra". É preciso compreender que a humanidade como um todo constitui um só corpo, composto pelo conjunto dos seres humanos, como nosso próprio corpo é composto por milhares de células. É o conjunto dos seres humanos que causa desigualdade entre os homens. Enquanto dois terços da humanidade está na miséria e morre de fome, o outro terço come demais ou joga comida no lixo. Através de ações ditadas pelo egoísmo, pela ganância e pelo poder, o homem destrói os recursos naturais, polui os oceanos e explora a Terra ao extremo, sem se preocupar com as gerações futuras, se apegando cada vez mais no "ter", em detrimento do "Ser".

Entretanto, existe no mais profundo da consciência de muitos um poderoso desejo de ver isso tudo mudar, de viver numa terra mais justa, mais agradável, mais harmoniosa, mais fraterna. Com certeza, uma boa parte da humanidade deseja acreditar que o mundo possa ser simplesmente melhor.

Nesse caso, a alma da humanidade vive um conflito gigantesco. De um lado, nossas ações egoístas por medo de perder o que cremos possuir. De outro, nossas aspirações profundas clamam por mudanças, mais amor e justiça. Como o ser humano, a humanidade também sofre tensões que se cristalizam e se transformam em doenças e acidentes sob a forma de guerras, epidemias, fome, catástrofes, terrorismo...

Como a humanidade é o conjunto de todos os indivíduos, cada um de nós é responsável pelo bem ou pelo mal de todos, pois enquanto consciência coletiva vivemos em indelével unidade. Isto quer dizer que tudo o que vive sobre a Terra está ligado entre si. Assim, não podemos fazer qualquer coisa, a qualquer um ou em qualquer lugar, sem sofrermos as consequências enquanto indivíduos e enquanto seres humanos. Portanto, somos todos também palestinos, afegãos, israelenses, negros, amarelos, árabes, tibetanos... e mesmo terroristas. Se não, por que se ama tanto os filmes de violência?

O terrorista, personificado por Osama Bin Laden, que procura destruir os símbolos de um mundo que funciona mal, não seria ele o porta voz inconsciente, o elemento catalisador dos nossos desejos, conscientes ou inconscientes, de ver mudar a sociedade e o mundo? É evidente que seus métodos são brutais e inaceitáveis, tanto quanto a guerra e as sanções econômicas, pelos seus efeitos sobre populações inocentes dos motivos que impulsionam as ações dos dois lados. Mas, quando um câncer se desenvolve num corpo, não destrói ele milhares de células e desestabiliza emocional e psicologicamente aquele que o sofre?

Esses fatos denunciam, pura e simplesmente, que a humanidade está doente. Por isso, cada um de nós está diante de uma escolha: se questionar sinceramente sobre o que está criando através dos próprios pensamentos e ações no mundo, revendo seus valores, suas crenças, suas certezas e seus comportamentos, para evoluir; ou permanecer como antes, se deixando consumir pelas doenças coletivas que se manifestam através do ódio e do medo.

E é bom não esquecer das nossas crianças e dos nossos jovens. Como as estamos educando? Que valores estão elas recebendo dos adultos? E os jovens, cheios de esperança no futuro, que caminhos estamos lhes indicando como pais e professores? Estamos construindo um futuro em expansão ou um estreito caminho recheado de mágoas e ressentimentos? Estamos nós dando-lhes chance de evoluir com consciência e responsabilidade pela própria vida ou os estamos incluindo num círculo vicioso de superficialismo, de aparências, marcado por julgamentos, medo e ódio? Por que não lhes ensinar que as nossas fantasias de poder são meras ilusões e que, como seres humanos, somos todos imperfeitos em busca da perfeição? Há muitos desafios a serem enfrentados diariamente por pais e educadores e um deles é ensinar aos jovens e às crianças que o objetivo da vida é ser feliz. Mas o maior deles é manifestar amor, pois amar é um ato de coragem.

Apesar de tudo, é extraordinário constatar o espantoso poder que os acontecimentos dramáticos tem sobre os seres humanos. É como se brutalmente tivéssemos saído de uma letargia profunda, e finalmente, durante algum tempo, os valores aos quais nós todos aspiramos, pudessem enfim se exprimir. Vemos então em todos os meios de comunicação, imagens e relatos de grandes momentos de fraternidade, de ajuda, de solidariedade, de compaixão, de mobilização nacional e internacional, enfim de abertura ao amor. Aí nos perguntamos: por que o ser humano espera encontrar-se em situações de extremo desespero para manifestar amor, compartilhar, aceitar e abrir-se ao outro? Quando é que o homem compreenderá que é feito de amor e não precisa sofrer para manifestar o que ele é em sua essência?

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